Homilías & Reflexões


Jesus, Senhor da Vida

Jesus, Senhor da Vida!

José da Cruz

 

Lucas nesse evangelho, não narra um fato comum, não é todo dia que alguém pára um enterro durante o percurso ao cemitério, e com um simples toque no caixão diz “Fulano, eu te ordeno, levanta-te”, e o falecido sai andando vivinho da silva e…feliz da vida. Pensar em Jesus de Nazaré, nosso Deus e Senhor, como alguém que tinha como missão ressuscitar mortos, seríamos obrigados a concordar que tal missão foi um fracasso, Jesus ressuscitou Lázaro de Betânia, a filhinha de Jairo, e o Filho da viúva de Naim, fato apresentado nesse evangelho, e mais ninguém,,,

Com certeza em sua vida desde a infância até a  morte, Jesus viu muita gente morrer, inclusive seu pai José, por que não fez nada? A irmã de Lázaro pensava assim, tanto é, que disse a Jesus, quando ele chegou a sua casa “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, alguns judeus que pranteavam Lázaro também tinham a mesma opinião, “Por que ele permitiu que Lázaro, seu amigo, morresse?” E essa ladainha de lamentação prossegue hoje e possivelmente até nós, na experiência da morte de algum ente querido, questionamos “Por que,  Senhor?”

A reflexão é muito ampla, mas somos convidados a olhar para nossas comunidades cristãs onde vivemos e celebramos a comunhão com Deus e com os irmãos, fato que acabamos de refletir no Domingo da Santíssima Trindade. Certamente conhecemos  pessoas que, apesar de ser membros da comunidade, parece que não se identificam com ela, são as temperamentais, geniosas, radicais, verdadeiras “Mulas empacadeiras” que nunca mudam a conduta e o comportamento, vivem exigindo que os outros mudem e se convertam, nada está bom, têm sempre uma crítica ou uma queixa contra alguém, criaram uma crosta impenetrável, de tal modo que a Palavra de Deus não consegue atingir-lhes o coração. São os “mortos”, carregados pacientemente pela comunidade. Quando fazem algo, sempre reclamam, se não os deixa fazer, reclama do mesmo jeito, não se sentem valorizados, vivem choramingando pelos cantos e só sabem cantar aquele refrão “Ninguém me ama, ninguém me quer…” Ah Deus Santo, como atrapalham…

Quando não nos abrimos para a Palavra de Deus, quando não cremos no poder da Graça em nossa vida e na vida dos irmãos, a Eucaristia torna-se apenas um rito, e a comunhão com os irmãos, algo pesado e tenebroso, chegando a ser insuportável! Até que desistimos dessas pessoas, e decidimos enterrá-las, para o bem da comunidade. Não a convidamos mais para nenhum trabalho, alardeamos a todos sobre o seu temperamento difícil e não cremos mais que ela vá mudar sua conduta. Enterrar alguém é desistir de amá-la, de conviver com ela, não queremos a ter por perto..

Queremos sempre enterrar nossos “mortos” que atrapalham a caminhada, apesar de os amarmos, como aquela mulher amava seu filho, mas é alguém que para nós está morto, porque não tem mais jeito, não há outra solução senão a de se fazer o enterro. Eis que Jesus nos surpreende, aparecendo no meio da comunidade e demonstrando grande compaixão por aquele que julgamos morto, e que queremos enterrar. Compaixão… Palavra milagrosa que ressuscita mortos, que muda a vida das pessoas, palavra que às vezes faz tanta falta em muitos ambientes, e até em nossas comunidades.

Um leve “toque” da Palavra do Senhor, e uma ordem “Fulano, eu te ordeno: Levanta-te!” . Sentou-se o que estivera morto, começou a falar, e Jesus o entregou para sua Mãe. A Comunidade – Igreja é nossa Mãe, para ela sempre somos entregues quando ele nos ressuscita no dia a dia, das nossas fraquezas e desânimos. Comunidade não é lugar de morte, mas de vida, perto de Jesus ninguém é considerado morto, pois pela sua compaixão e Misericórdia, manifestada em nossos corações, na relação com todos os que caminham conosco, o Milagre da Vida sempre acontece, nossos “mortos” não resistem, um toque de compaixão, imediatamente sentam, começam a falar, mudam de vida, e cheios de admiração e temor, dão glórias a Deus. Que tal mandarmos parar o enterro, e ressuscitar nossos mortos, bem do jeito que Jesus ensinou…? (10º Domingo do Tempo Comum)

 

José da Cruz é Diácono Permanente da

-Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim

E-mail cruzsm@uol.,com.br

 

 

 

Jesus, Senhor da Vida!

José da Cruz

 

Lucas nesse evangelho, não narra um fato comum, não é todo dia que alguém pára um enterro durante o percurso ao cemitério, e com um simples toque no caixão diz “Fulano, eu te ordeno, levanta-te”, e o falecido sai andando vivinho da silva e…feliz da vida. Pensar em Jesus de Nazaré, nosso Deus e Senhor, como alguém que tinha como missão ressuscitar mortos, seríamos obrigados a concordar que tal missão foi um fracasso, Jesus ressuscitou Lázaro de Betânia, a filhinha de Jairo, e o Filho da viúva de Naim, fato apresentado nesse evangelho, e mais ninguém,,,

Com certeza em sua vida desde a infância até a  morte, Jesus viu muita gente morrer, inclusive seu pai José, por que não fez nada? A irmã de Lázaro pensava assim, tanto é, que disse a Jesus, quando ele chegou a sua casa “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, alguns judeus que pranteavam Lázaro também tinham a mesma opinião, “Por que ele permitiu que Lázaro, seu amigo, morresse?” E essa ladainha de lamentação prossegue hoje e possivelmente até nós, na experiência da morte de algum ente querido, questionamos “Por que,  Senhor?”

A reflexão é muito ampla, mas somos convidados a olhar para nossas comunidades cristãs onde vivemos e celebramos a comunhão com Deus e com os irmãos, fato que acabamos de refletir no Domingo da Santíssima Trindade. Certamente conhecemos  pessoas que, apesar de ser membros da comunidade, parece que não se identificam com ela, são as temperamentais, geniosas, radicais, verdadeiras “Mulas empacadeiras” que nunca mudam a conduta e o comportamento, vivem exigindo que os outros mudem e se convertam, nada está bom, têm sempre uma crítica ou uma queixa contra alguém, criaram uma crosta impenetrável, de tal modo que a Palavra de Deus não consegue atingir-lhes o coração. São os “mortos”, carregados pacientemente pela comunidade. Quando fazem algo, sempre reclamam, se não os deixa fazer, reclama do mesmo jeito, não se sentem valorizados, vivem choramingando pelos cantos e só sabem cantar aquele refrão “Ninguém me ama, ninguém me quer…” Ah Deus Santo, como atrapalham…

Quando não nos abrimos para a Palavra de Deus, quando não cremos no poder da Graça em nossa vida e na vida dos irmãos, a Eucaristia torna-se apenas um rito, e a comunhão com os irmãos, algo pesado e tenebroso, chegando a ser insuportável! Até que desistimos dessas pessoas, e decidimos enterrá-las, para o bem da comunidade. Não a convidamos mais para nenhum trabalho, alardeamos a todos sobre o seu temperamento difícil e não cremos mais que ela vá mudar sua conduta. Enterrar alguém é desistir de amá-la, de conviver com ela, não queremos a ter por perto..

Queremos sempre enterrar nossos “mortos” que atrapalham a caminhada, apesar de os amarmos, como aquela mulher amava seu filho, mas é alguém que para nós está morto, porque não tem mais jeito, não há outra solução senão a de se fazer o enterro. Eis que Jesus nos surpreende, aparecendo no meio da comunidade e demonstrando grande compaixão por aquele que julgamos morto, e que queremos enterrar. Compaixão… Palavra milagrosa que ressuscita mortos, que muda a vida das pessoas, palavra que às vezes faz tanta falta em muitos ambientes, e até em nossas comunidades.

Um leve “toque” da Palavra do Senhor, e uma ordem “Fulano, eu te ordeno: Levanta-te!” . Sentou-se o que estivera morto, começou a falar, e Jesus o entregou para sua Mãe. A Comunidade – Igreja é nossa Mãe, para ela sempre somos entregues quando ele nos ressuscita no dia a dia, das nossas fraquezas e desânimos. Comunidade não é lugar de morte, mas de vida, perto de Jesus ninguém é considerado morto, pois pela sua compaixão e Misericórdia, manifestada em nossos corações, na relação com todos os que caminham conosco, o Milagre da Vida sempre acontece, nossos “mortos” não resistem, um toque de compaixão, imediatamente sentam, começam a falar, mudam de vida, e cheios de admiração e temor, dão glórias a Deus. Que tal mandarmos parar o enterro, e ressuscitar nossos mortos, bem do jeito que Jesus ensinou…?

 

José da Cruz é Diácono Permanente da

-Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim

E-mail cruzsm@uol.,com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Vídeo: “Agora é cinza…”


Quarta-feira de Cinzas

          “Agora é cinza, tudo acabado e nada mais…” Um amigo lançou-me um agradável desafio: que eu não conseguiria iniciar a reflexão dessa Quarta Feira de Cinzas, evocando  o samba de Bidê e Marçal, carnaval de 1934, composição de Mário Reis, que conta uma história de amor, onde a mulher vai embora cometendo uma ingratidão, deixando o homem na saudades. Há semelhança entrem o enredo desse samba e a história da salvação, que vai se repetindo em nossa relação com Deus, presente em Jesus, pois na primeira leitura , tirada de Joel, basta ver os apelo dramático que Deus faz ao seu povo “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração e não as vestes, e voltai para o Senhor, Vosso Deus, ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”…pouco se fala do pecado, da traição e infidelidade do povo, mas exalta-se o atributo Divino de um Ser amoroso, cheio de benignidade, compassividade e misericórdia e na verdade, há uma única exigência da parte de Deus: que haja sinceridade de intenções, que a relação com ele seja de coração e não de aparência, em outras palavras, que seja um arrependimento sincero de quem tem a consciência de que a sua conduta errada, feriu  o coração amantíssimo de Deus.

                Se o enredo do samba que tomei como “gancho”, fala de uma relação de amor que acabou em nada, tornando-se cinzas, impossível de ser retomada, reatada, refeita, na história da salvação também há cinzas, conseqüência dessa ruptura do homem com Deus. Constantemente em nossa vida de fé, com facilidade “fazemos as malas” e deixamos Deus falando sozinho, quando optamos por outros reinos -sedutores que o mundo nos apresenta, e o que nos impressiona, é que esse Deus revelado em Jesus, não se conforma com a nossa ausência em sua vida divina, e insiste em nos chamar, em nos seduzir, em nos apresentar o seu projeto de vida, marcado sempre por um obstinado amor, comporta-se como um eterno apaixonado, sempre confiando e esperando que nos voltemos para ele, porque sabe que o seu amor nos cura de todos os nossos pecados e fraquezas.

                 Na vida de fé, a graça de Deus, dom imerecido que Jesus nos dá a cada momento, realiza um milagre que nos faz renascer das cinzas, confirmando-se o pensamento Abrâmico – Deus do impossível,

Que permeia as páginas da Sagrada Escritura, do Patriarca Abraão até Maria de Nazaré, transformando a esterilidade e infertilidade humana em Vida, colocando no coração humano a semente da imortalidade, predestinando-o à uma vida Eterna, evidenciando que o Projeto é Divino, não humano e que apesar disso,

-o Deus Onipotente e Poderoso, acolhe o homem insignificante como parceiro na construção desse reino.

                Na liturgia pré conciliar, o rito de imposição das cinzas marcava esse distanciamento entre Deus e o Homem, “Lembra-te que és pó, e em pó hás de voltar”. Deus não quer, com essa lembrança, nos esmagar em nossa mísera condição humana, ao contrário, é um lembrete para que não nos esqueçamos da sua fidelidade, desse amor que nos envolve com tanta atenção e ternura, apesar de sermos cinzas. É a promessa da ressurreição, ressurgiremos da cinza, do nada, entraremos na glória, não pelas nossas ações e boas obras, mas porque a sua misericórdia nos alcançará, quando tudo parecer irremediavelmente perdido, na trágica solidão de um túmulo, o seu amor nos arrebatará, e de um cadáver seco e transformado em pó, o Senhor nos dará um corpo novo, seremos acolhidos festivamente como o Filho pródigo, a glória do Senhor cobrirá nossas misérias e nos purificará, é este o destino de todo homem, pelo menos no que depende de Deus, que quer a salvação para todos.

                “Converter e crer no evangelho” é sempre um convite para avançarmos nessa experiência de viver segundo os ditames desse amor que sempre nos busca, é um alerta para deixarmos de lado a prática religiosa das aparências, a religião da superficialidade, que não leva a lugar nenhum senão a sustentação da nossa vaidade, é um chamado para aprofundarmos nossa relação com Deus, redescobrindo a cada instante que Jesus é o único Deus e Senhor, Salvador e Redentor do homem, nenhuma outra experiência humana nesta vida, será tão transformadora e autêntica como a vocação cristã.

                Receber as cinzas na cabeça, é ter no coração essa grande disposição e abertura para acolher a palavra do Senhor, e acreditar que ela nos liberta de tudo o que nos oprime, que ela transforma as cinzas do nosso desânimo em Vida Nova, é praticar a caridade, a oração e o jejum, não como preceito normativo, mas como uma resposta ao Deus que nos chama, pois não há outra forma de dar nossa resposta a ele, em um tempo tão oportuno como a quaresma, para que neste mundo tão violento, o homem que crê possa transformar o seu medo em esperança..

 

(QUARTA FEIRA DE CINZAS – Mateus 6, 1-6.16-18)


Vídeo: “Nossos paralíticos…”


VII Domingo do Tempo Comum

          Certa ocasião, quando refletíamos esse evangelho em grupo, alguém perguntou se na casa onde Jesus estava pregando, havia elevador ou coisa parecida, se olharmos o relato em si mesmo, vamos acabar fazendo outras perguntas como, “Será que eles não podiam pedir licença para passar no meio das pessoas e entrar na casa?” e mais ainda… Seria normal que as pessoas que estavam aglomeradas á entrada, quando vissem o esforço dos quatro homens, subindo na parede com o paralítico deitado em uma cama, oferecessem ajuda, buscando uma alternativa mais fácil… O próprio Jesus, não poderia ter dado um jeito de sair  para atender o paralítico, sem precisar tanto esforço de subir e ainda ter de abrir um buraco no telhado? Fazer perguntas como essas, é muito importante para a nossa reflexão, pois vamos e convenhamos, o modo que eles encontraram para colocar o paralítico á frente de Jesus, não foi o mais fácil, aliás, correu-se até o risco de um grave acidente.

                Hoje em dia a gente sabe que nossos templos existentes, ou os que estão em construção, devem ter em seu projeto, a construção de rampas, para facilitar o acesso de nossos irmãos deficientes. Mas com certeza, não é este o tema do evangelista, ele está querendo dizer alguma coisa as suas comunidades e aos cristãos do nosso tempo.

                Dia desses, alguém bastante estressado dizia-me que certas pessoas só atrapalham a vida  da comunidade, porque são muito radicais, geniosas, incomodam a rodos, e o tempo todo só arranjam encrencas e mais encrencas, concluindo, dão muito trabalho, são sempre do contra, enfim, chatas e duras de engolir, e que sem elas, a comunidade é uma maravilha, o conselho deveria tomar providência, ou quem sabe, o padre impor a sua autoridade.

                Pessoas com essas características não caminham, e ainda dificultam a vida de quem quer caminhar: pronto, já começamos a descobrir os paralíticos e paralíticas de nossas comunidades, irmãos e irmãs que não se emendam de seus defeitos, nunca mudam o seu jeito de ser, não se convertem e precisam portanto, ser acolhidas e carregadas.Há irmãos na comunidade que a gente tem prazer de encontrar, é sempre uma alegria imensa, mas há também esses, que nos perturbam, incomodam, e a gente não fica a vontade, se estão conosco em uma reunião da pastoral ou do movimento, a troca de “farpas” será inevitável…

                Há no texto duas coisas que chamam a nossa atenção, primeiro o esforço desse quarteto, subir pela parede, desfazer o telhado e descer a cama com cordas. Jesus elogia-lhes a fé, parece até que fez o milagre como retribuição a tanto esforço. Eles tinham fé em Jesus Cristo, sabiam que se o levassem diante dele, seria curado, mas por outro lado, embora o texto não cite isso, a gente percebe que o amavam muito, tiveram com ele muita paciência, sei lá quantos quilômetros tiveram que andar, carregando aquela cama que deveria ser pesada, e ainda, ao deparar com a multidão aglomerada á frente da casa, poderiam ter desistido, já tinham feito a sua parte. Mas a força do amor e da fé, fez com que não desistissem, e se preciso fosse, seriam capaz de derrubar a casa.

                Os quatro são uma referência para as nossas comunidades, onde muitas vezes falta-nos o amor e a fé, para carregar nossos paralíticos e superar os obstáculos, passando por cima dos preconceitos. Nas comunidades há pessoas amorosas, pacienciosas, que aceitam conviver com todos, amando-os como eles são, sem exigências, preconceitos ou radicalismo, mas há também a turma de “nariz empinado”, como aqueles doutores da lei, que não crê em um Deus que é misericórdia, e que perdoa pecados, seguem normas e preceitos, até trabalham na comunidade, mas são extremamente exigentes com os “paralíticos”, acham-se perfeitos e não aceitam a convivência com os imperfeitos.

                Jesus elimina o problema pela raiz, “Filho, teus pecados te são perdoados…”, a cura física vem em segundo plano, e se a enfermidade impede que o paralítico se aproxime de Jesus, a comunidade os carrega, possibilitando que ele também faça a experiência do Deus que perdoa, ora, se houver na comunidade intolerância, preconceitos, e ranços ocultos, como é que essas pessoas

Poderão experimentar o amor, o perdão e a misericórdia? Os intolerantes têm sempre um olhar extremamente crítico e severo, para com os paralíticos, e não aceitam que outras pessoas tenham por eles amor e ternura, manifestada na paciência e tolerância.

                Por isso Jesus ordena – levanta-te, toma o teu leito e vai para casa. Deus nunca faz as coisas pela metade, na obra da salvação, Jesus não fez simplesmente uma reforma no ser humano, mas o transforma em uma nova criatura, na graça santificante do Batismo, fazendo com que deixe de se relacionar com Deus na religião normativa, porque crê no Deus que é todo amor e misericórdia, que perdoa pecados e os liberta com a sua santa palavra, em Jesus de Nazaré.


( VII Domingo do TC Mc 2, 1-12)


Vídeo: “…Sentiu compaixão”


VI Domingo do Tempo Comum

          A nossa compreensão da palavra “compaixão”, nunca será completa, pois,  na Sagrada Escritura, “sentir compaixão” é uma virtude própria de Deus e na maioria das vezes, esse sentimento pelo próximo, que o nosso coração define como “compaixão” não passa na verdade de um,   gesto de piedade, que também é um atributo Divino, porem em seu sentido mais amplo, que o coração humano nunca será capaz de alcançar.  O evangelho desse Domingo, nos ajuda a aprofundar o sentido dessa ação de Jesus, presente em momentos significativos, quando ele se defronta com a miséria humana,  motivando-nos a rever se a estamos aplicando na relação com o próximo, em seu sentido autenticamente cristão.

        Pelo conteúdo normativo de Levíticos, primeira leitura, Jesus tinha mil e uma razões para nem sequer se aproximar de um leproso, que pertencia a classe dos “irrecuperáveis” daquele tempo, na ótica religiosa. A  lepra era incurável e vista como conseqüência do pecado e assim, o leproso  era considerado um maldito, que além da dor física, sofria também a dor moral da exclusão, sendo esta bem mais dolorosa  porque o colocava  à margem da salvação,  banindo-o do convívio social e da comunidade, além de saber que a sua condenação no pós morte, era tida como certa e definitiva.

        Em uma sociedade marcada pelo ateísmo moderno, onde a fé é subjetiva e Deus é perfeitamente dispensável, esse quadro não é tão tenebroso, mas no contexto histórico e religioso daquele tempo, esse

-desprezo tinha um peso muito maior, o leproso era tido como um lixo, escória da sociedade, confinado em acampamentos fora da cidade, tendo que mostrar a sua desgraça e miséria, mantendo uma aparência monstruosa, e quem se aproximasse dele e o tocasse, estaria violando os preceitos da lei, tornando-se também um  impuro e tendo de isolar-se, até que pudesse oferecer um sacrifício de expiação, como prescrevia a lei de Moisés, para só então ser reconhecido como “purificado”

        Podemos então compreender a compaixão Divina, como uma ação coordenada não por normas legalistas, mas por uma lei nova, ensinada por Jesus: a Lei do amor, que não revoga a Lei antiga, mas lhe dá plenitude resgatando o seu sentido verdadeiro, que é  a defesa e a preservação da vida humana. O evangelista Marcos faz questão de mostrar, da parte de Jesus essa “quebra de protocolo”, quando permite que o leproso se aproxime, é verdade que este o faz movido pelo desespero, infligindo também as normas do Levítico, e aqui percebe-se que o leproso é um homem diferente, uma vez que crê muito mais na misericórdia de Jesus, do que no cumprimento da Lei, determinada por uma instituição que não tem o poder da cura, mas apenas declara que ele está “impuro”, ao contrário de Jesus, que permite a aproximação, derrubando assim o preconceito.

        Muito mais do que um simples encontro de Jesus com um leproso, este versículo sintetiza de forma brilhante o amor e a ternura de Deus pelo ser humano, permitindo uma reaproximação, após a queda  do pecado, é o Deus que se deixa tocar, que se encarna e assume a natureza humana, com toda sua miserabilidade, o leproso se prostra diante dele, por uma razão muito simples: primeiro porque reconhece a sua insignificância,e em segundo porque não vê outra saída para sua dor, senão a de recorrer aquele que é diferente da instituição religiosa que o havia condenado, no fundo crê que Jesus de Nazaré é o seu Salvador e libertador, no sentido de ter o poder de resgatar a sua dignidade perdida, aquele leproso considerado um maldito, é na verdade alguém que consegue vislumbrar o verdadeiro messianismo de Jesus, em contradição com o Poder religioso, que o rejeita, mostrando uma fé madura, pois não pede simplesmente a cura física, mas a “purificação”.

        Diante de uma fé assim, tão fiel e humilde, note-se que o leproso não impõe e nada exige e nem coloca a sua vontade como fator determinante, mas abandona-se à vontade de Deus: “Senhor, se queres…”. Que comovedora profissão de fé, para o homem arrogante e presunçoso de nossos tempos !,

Homem que a exemplo dos nossos primeiros pais,  ousa ocupar o lugar que é de Deus, marginalizando e excluindo certas categorias sociais consideradas malditas, abandonadas em presídios de sistemas carcerários, que em quase nada contribuem para a recuperação de quem errou, de idosos, jovens, adolescentes e crianças, amontoados em asilos e instituições de caridade, gente que não tem mais esperança de nada, e que há muito tempo nem é mais contada  na “aldeia global”, que só considera quem produz e consome.

        Podemos encontrar com esse leproso no seio de nossas famílias e comunidades, onde isolamos certas pessoas em “acampamentos”, consideradas pervertidas, geniosas, temperamentais, desequilibradas, poderíamos incluir os aidéticos, efeminados, casais em segunda união, dependentes químicos, prostitutas, mães solteiras, pessoas que, como naquele tempo, sempre temos uma certa reserva, mantendo a necessária distância por medo de sermos “contaminados”, e  a sua presença em nosso meio, causa asco e mal estar. Como cristãos, temos que ter essa consciência do grave pecado da exclusão, e o evangelho nos mostra por onde devemos começar, é bem verdade que Jesus afrontou as instituições do seu tempo, mas em primeiro lugar, em sua relação com as pessoas, usou sempre da lei do amor, deixando de lado normas de conduta e formalismos religiosos, ao tocar no leproso. Poderíamos começar no nosso dia a dia, acolhendo com gestos cordiais, amizade e carinho, os “leprosos” que muitas vezes excluímos, por conta de preconceitos e até intolerância.

(VI DOMINGO DO TC)


vídeo: “A fé da magia”


V Domingo do Tempo Comum

          Gosto muito de ouvir histórias de pessoas que montaram um pequeno negócio, e após muito esforço foram bem sucedidas, tornando-se gestores de grandes empresas, agindo sempre com ética e honestidade. O bom empreendedor é sempre ousado e pensa “grande”, tendo uma visão audaciosa do futuro, atitude muitas vezes até criticada e questionada pelos acomodados que pensam “pequeno”. porque têm medo de arriscar. Se o empreendorismo é fator dos mais importantes no desenvolvimento de uma nação, de uma empresa ou de qualquer negócio, no reino de Deus não poderia ser diferente, porém, é preciso ter os pés no chão, trabalhando a cada dia com vistas à grandiosidade que se vislumbra, pois o homem de fé, mais do que ser otimista, já vai construindo no hoje da história, o reino de Deus alicerçado pelo próprio Cristo.

        No evangelho desse quinto domingo do tempo comum, podemos perceber nitidamente essa diferença no modo de pensar e agir, entre Jesus e os seus discípulos. Enquanto o mestre pensa em algo grandioso, querendo expandir o projeto recém iniciado, os discípulos estão seguros de que já alcançaram o sucesso e demonstram grande interesse em montar ali, na casa de Simão, uma “Tenda dos Milagres”, pois o carisma de Jesus já tinha atraído uma grande e imensa clientela, ao curar os enfermos e expulsar os demônios, por isso aonde ele ia, a multidão maravilhada com os sinais prodigiosos, o seguia.

        Há nesta fé da magia, a perspectiva de um negócio altamente lucrativo em todos os sentidos, pois Jesus tem o perfil do Messias esperado, poderia ser ele o salvador da pátria, capaz de dar a grande virada na história de Israel, e um populismo assim, era tudo que eles queriam para concretizar a libertação com que sonhavam. Não conseguiam vislumbrar em Jesus algo além dos seus ideais humanos, que também eram importantes e tinham o seu valor, mas Jesus não veio para ser o Rei dos Milagreiros, nem para ser um libertador político, pensar assim é pensar “pequeno”, ter uma fé com essa expectativa de um Cristo prodigioso, que interfere com seu poder na vida das pessoas, quando essas fazem por merecer, realizando milagres e curas inexplicáveis, é menosprezar toda a obra da Salvação, é fazer da Igreja uma simples tenda dos milagres, é abusar de certos carismas recebidos, explorando assim a boa fé das pessoas, e Cristianismo não é isso.

        Curas de enfermidades o Cristo as realizou ontem, e realiza também hoje, mas estas são simples sinais de algo maior, de um empreendimento mais arrojado, com o qual todos têm de se comprometer, acreditar, deixar de ser um torcedor para entrar em campo e “suar a camisa” por aquilo em que se acredita. E como é que podemos, com nossas limitações e fraquezas, sermos parceiros de Deus nesse projeto tão arrojado, que plenifica e ao mesmo tempo transcende, qualquer empreendimento humano?

        O evangelho responde em seu início, logo que Jesus sai da sinagoga e vai á casa de Simão, onde os discípulos correm para lhe falar que a sogra de Pedro estava acamada e com muita febre. Era uma pessoa debilitada, entregue ao desânimo, que muitas vezes chega à vida de alguém, que doença seria essa? O comodismo e o desânimo, o egocentrismo, a indiferença na relação com as pessoas, nas comunidades cristãs há pessoas assim, que precisam de ajuda, para cair na realidade. Jesus não diz uma só palavra, mas apenas estende a mão e a ajuda a levantar-se do seu leito. Como é bom quando sentimos que o outro nos estende a mão, em um grandioso gesto de ajuda… Como é bom agarrar com firmeza a mão amiga, que nos permite levantar e dar a volta por cima, diante de tantas situações difíceis da nossa vida.

        Amor que se traduz em gestos de solidariedade, um toque de mão que transmite segurança, afeto, ânimo e esperança, sem muito ritual pomposo, sem êxtases arrebatadores. Como resultado desse gesto de ajuda, a mulher se levanta a febre a deixa e agora se põe a servir a comunidade. É na oração íntima com Deus Pai, que Jesus de Nazaré fortalece a sua missão, cumprindo a vontade daquele que o enviou, pois sem a oração, a nossa igreja seria apenas um Posto de atendimento de serviço religioso ou balcão de Sacramentos. . É na oração que acontece este colóquio com o Pai, aonde vai se descortinando para nós a plenitude do Reino, que humildemente vamos construindo com gestos simples como o de Jesus, capaz de erguer as pessoas que estão ao nosso lado.

        Os discípulos, encantados com o carisma e o Poder do mestre, querem urgentemente abrir um “pequeno negócio”, um salãozinho de fundo de quintal, onde eles teriam naturalmente o monopólio sobre Jesus e seus milagres, mas o Mestre pensa grande, ele não veio para que as pessoas o buscassem, mas para ir ao encontro delas, curando de suas enfermidades e as libertando dos males físicos e espirituais, como um sinal da libertação plena. É esse o Cristo que devemos anunciar como Igreja missionária, pois qualquer outra imagem diferente da que nos apresenta o evangelho, seria apenas uma caricatura grotesca, uma cópia falsificada de um mero “Salvador da pátria”, desses que vez ou outra, o povo gosta de aclamar como Rei.

 
( V Domingo do TC Marcos 1, 29-39)                        


Vídeo: “Cala-te e sai dele!”

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